Enquanto para alguns a rotina é uma prisão, para outros ela é como um porto seguro. Meu falecido pai, por exemplo, precisava repetir seus rituais diariamente, principalmente de horário para acordar, sair de casa, voltar pra casa, semana a semana. Qualquer alteração, por menor que fosse, nesse mecanismo de relojeiro, o deixava angustiado, até que pudesse retomar o mesmo cotidiano. Uma inofensiva comemoração de aniversário que fosse, fora do script, já era o suficiente para deixar papai “mais perdido do que cachorro em dia de mudança”…
Acredito que ele tivesse algum probleminha do tipo TOC (transtorno obsessivo compulsivo) que, na época, não era conhecido, ou coisa mais grave. No momento, tenho pelo menos duas pessoas de minha relação próxima que estão, por motivos diferentes, ali na fronteira da sanidade mental.
Num cenário assim, contas são um alento. Elas chegam regularmente, sem recurso, e nunca mudam, nunca falham, como uma réstia de estabilidade num mundo já não tão estável.
