Eu quero ser da massa!
Todas as vezes que começo a conversar sobre publicidade, meios de comunicação, etc eu comento sobre a questão de “ser da massa” ou fazer para as massas. Além de comentar, eu gosto de ouvir quais as opiniões das pessoas em relação a esse assunto, e por aqui não vai ser diferente. Quero compartilhar um pensamento que tenho, mas também quero saber o que vocês acham dele. Para isso, usarei a cantora Nelly Furtado como um bom exemplo para explicar.
Biografia

Nelly Kim Furtado nasceu em Victoria/Canadá, mas é filha de imigrantes portugueses. Além de ser canadense, Nelly possui a nacionalidade portuguesa, mantendo uma relação muito próxima com o país. Começou a compor as suas próprias canções quando tinha apenas treze anos, portanto sua carreira de cantora já se iniciava a partir daí.
Quando se mudou para Toronto e desenvolveu sua carreira como cantora, o álbum “Whoa, Nelly!” (2000) foi lançado e, segundo o Wikipedia, foi um dos mais vendidos em sua categoria com os singles “I’m Like a Bird” e “Turn Off the light”. Além disso a cantora ganhou um Grammy de “Melhor cantora Pop” com a música “I’m Like a Bird” acompanhada do guitarrista Steve Vai. O álbum vendeu mais de 5.000.000 de cópias e possuia um estilo alternativo, original, com uma mistura de hip hop, percussões brasileiras e fados, além de influencias do grupo conterrâneo Madredeus.
A cantora, com este album, se posicionava no mercado musical muito mais como uma cantora “cult” e alternativa do que popular, justamente por possuir um sonoridade muito original e diferente do que estamos acostumados a ouvir. Essas características acabavam dificultando a ascensão da cantora na mídia e a exibição de seus clipes em canais como MTV, TRL e afins. Além disso era mais difícil conquistar novos ouvintes. Neste momento a cantora agradava um nicho muito específico, que apesar de ser grande, poderia não ser tão rentável.
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Posteriormente a cantora lancou o álbum “Folklore” (2003), ainda originalíssimo, com muita sonoridade e influências das percussões brasileiras, de músicas cantadas em várias línguas e um estilo que só ela tinha. Abaixo uma descrição perfeita do Wikipedia acerca desse álbum:
A primeira das doze canções a ser rodada é “Powerless (Say What You Want)”, um bom exemplo do regresso às raízes portuguesas da cantora. No videoclipe Nelly mostra-nos um pouco do folclore que se dança nos Açores. Uma fusão entre o passado e o presente. Um retomar de sons antigos que Nelly ouvia em criança, agora com “um toque” da sua linha habitual, pop e Hip hop.
Percebem o quão específico é o nicho desta cantora? Mostrar o folclore que se dança nos Açores não é nada popular.
Este álbum vendeu 2.000,000 de cópias mundialmente, ou seja, três a menos que o álbum anterior. O fracasso foi atribuido a problemas com a gravadora (que passava por uma transição) e a pouquíssima divulgação do álbum. De fato a pouca divulgação ajudou a não vender o álbum, mas tenho minhas dúvidas se realmente foi só isso.
Imagem da cantora para a mídia
Um outro ponto é que, além de produzir uma música para um nicho específico, Nelly tinha uma imagem de uma cantora tipicamente alternativa, onde sua sexualidade era pouco explorada, roupas com pouca produção e nada de estilistas famosos. Podemos resumir Nelly Furtado nesta fase como uma cantora que fazia o que ela mais gostava de fazer e do jeito dela, gostasse quem quiser. Ela ainda deu a sorte de encontrar uma gravadora que a deixasse “livre” para isso. Olhando pelo lado comercial, mais uma vez, a cantora e seu estilo original acabaram não sendo nenhum pouco rentável.
Reposicionamento
Com o fracasso nas vendas, imagem “apagada” na mídia e um estilo muito particular, Nelly começou a ser esquecida no mercado musical e precisava se reposicionar no mercado. Foi aí então que surgiu o álbum “Loose” (2006), produzido por Timbaland, cheio de influências da dance music, R&B e Hip-Hop. Até então nada de efetivamente novo, mas a grande novidade agora era o apelo sexual de Nelly Furtado em seus clipes e apresentações. Barriguinha sarada, coreografias sexy, roupas apertadas, caras e bocas. Letras mais fáceis, ritmo dançante e novo visual faziam parte da fórmula do sucesso que a levou para a “grande massa”.
Com o lançamento desse álbum, Nelly sofreu críticas e críticas da imprensa, dos fãs e do mundo todo por ter abandonado suas raizes, como díria Dado: “Você traiu o movimento punk, véio”, por ter apelado para um lado sexy só para vender mais e por ter perdido totalmente sua originalidade. Choveram críticas, mas Nelly sempre respondia que foi uma evolução natural de uma cantora pop, que chegou a hora de “mostrar um outro lado”, etc.
Críticas à parte, vamos aos dados: O álbum foi lançado no dia 20 de Junho de 2006 e no final de Março de 2007 o álbum já tinha vendido 7.000.000 de cópias mundialmente (fonte: Geffen Records), recebeu discos de Ouro ou pelo menos de Platina em vinte cinco países, ficou no Top 20 da Canadian Recording Industry Association (CRIA) por 57 semanas, entrou em #34 na lista anual da Billboard 2007 dos álbuns mais vendidos, em #1 na Alemanha como álbum mais vendido e conquistou outros milhões de títulos que você pode ver aqui. (Wikipedia em Inglês).
Conclusão
Concordo plenamente que devemos fazer o que gostamos, que precisamos correr atrás dos nossos idéais e não colocarmos o dinheiro em primeiro lugar na vida, mas analisando a trajetória da cantora vemos que a mudança radical para sair daquele nicho específico, onde “poucos” eram agradados, e partir para a grande massa não só trouxeram excelentes resultados nas vendas, e consequentemente mais lucro, como também a sua popularidade foi aumentada e seu trabalho foi exposto a um número MUITO maior de pessoas do que antigamente, mesmo tendo perdido sua originalidade.
Beleza, ela perdeu sua originalidade e raízes, mas hoje ela vende três vezes mais álbuns do que antigamente e ai eu pergunto:
O que você acha: vale a pena focar num nicho específico e seguir em frente, ou fazer algo que agrade a massa, obter um sucesso maior (do ponto de vista comercial) e perder a sua originalidade ?
Referências para o post
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http://webmusix.net/musix/i.php?id=185http://www.cbc.ca/arts/story/2006/06/28/nelly-billboard.html (Inglês)
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http://www.amazon.com/Folklore-Nelly-Furtado/dp/B0000DFZZA (Inglês)
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http://www.musicomh.com/albums/nelly-furtado.htm (Inglês)
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http://territorio.terra.com.br/canais/canalpop/lancamentos/materia.asp?materiaID=1398
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http://en.wikipedia.org/wiki/Loose_(album)
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http://www.lastfm.com.br/music/Nelly+Furtado/Loose/+wiki/diff?&a=1&b=2
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http://en.wikipedia.org/wiki/Nelly_Furtadohttp://en.wikipedia.org/wiki/Folklore_(album)
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http://en.wikipedia.org/wiki/Whoa,_Nelly!http://en.wikipedia.org/wiki/Loose_(album)#cite_note-PRNewswire-Nov2007-0
18 Comentários to “Eu quero ser da massa!”
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Marcos A. on fevereiro 4th, 2009
ô loko!
excelente post. Mas acho q a resposta depende mesmo do que a pessoa está vivendo, depende unica e exclusivamente dela. É muito fácil alguém de fora ficar opinando sobre as decisões dos outros.
Vai saber o que foi dito “em off” pra ela antes de tomar esta decisão ou que aconteceu na vida dela? E se desafiaram ela tipo “duvido q vc consiga fazer algo britney spears”?
Felipe Cepriano on fevereiro 4th, 2009
Eu acho que muitas vezes focar em um nicho vale mais a pena do que tentar agradar as massas.
Acho que um bom exemplo disso aqui no Brasil é o supermercado Zaffari. É uma rede gaucha, só tem uma loja fora do Rio Grande do Sul. Além disso, eles focam na classe A e B. Em vez de oferecer “o menor preço”, ele oferecem um bom atendimento, lojas bem arrumadas, etc…
E apesar de ser quase desconhecido, é o quinto supermercado em faturamento (em 2007, não sei dados mais atuais).
A Apple também vai no mesmo rumo. Não oferece produtos baratos, mas ainda assim teve lucros muito bons nesses tempos de crise.
PS: Amo a Nelly Furtado pré-Loose. O Loose pode ter vendido mais que os dois primeiros juntos, mas depois de um tempo enjoa.
Galileu on fevereiro 4th, 2009
@Marcos
Não duvido que a nova imagem dela foi “feita” pela gravadora, que sabia que se fosse por esse caminho seria bem mais rentável tanto para ela quanto pra gravadora. E será que as “raízes” também não foram impostas pela gravadora no início de sua carreira para consolidá-la no mercado e depois ela ficar livre pra fazer músicas não-tão-inspiradoras-e-alternativas?
Abraço
Samuel Yossef on fevereiro 5th, 2009
Numa boua eu não veja ela no meio aternativo rsss.
A só pra vc não falar que eu não ligo ou não entro no seu blog
Juliano Santana on fevereiro 6th, 2009
Tem aquele ditado que diz o seguinte: “Se não pode vencê-los, una-se a eles.”
Essa pergunta depende muito do que você quer pra sua vida. Esse negócio de “Você traiu o movimento” sempre vai existir.
Galileu on fevereiro 6th, 2009
@Felipe Cepriano
A questão é que a Apple começou popularzona, fazendo PC’s, e depois é que ela foi investindo em design, em tecnologia para poder segmentar o público consumidor.
Em relação a Nelly, eu gosto dela dos dois jeitos. Não sou fã e nem tenho músicas dela no meu iPod, mas gosto de ouví-la (mentira, tenho uma música eu acho)
@Samuel Yossef
Ela fazia parte do meio alternativo sim. Por favor, folclore dos Açores não é alternativo? :p
@Juliano Santana
Pois é. Ela viu que se continuasse do jeito que estava, ia prosseguir vendendo 3.000.000 eternamente. Acho que a decisão dela foi a melhor.
Felipe Cepriano on fevereiro 6th, 2009
@Galileu
Na verdade a Apple nunca foi barata, ela começou com os preços lá em cima (que na época estavam na média para um computador) mas não os baixou com o resto da indústria.
Com exceção de pouco modelos, todos os Macs custavam mais de U$$1000.
E ainda que tivesse começado mais popular, os resultados de hoje se devem a estratégia adotada por ela atualmente, de se diferenciar por qualidade.
Mas com certeza existe espaço tanto para as massas como para os nichos. Eu só acho mais rentável investir nos nichos porque é mais fácil fidelizar o cliente. Não só é díficil proporcionar uma boa experiência ao cliente se você tem que competir em preço como em um nicho é mais fácil agradar a maioria.
E o cliente que busca um preço mais baixo quase sempre vai comprar o mais barato, não vai dar tanta importância pra marca.
[E evidentemente isso já não se aplica ao seu exemplo com a Nelly, falo mais de consumo em geral]
Camille Paixão on fevereiro 6th, 2009
ótima observação.
creio que todo mundo tem um momento de escolhas como esta.
são poucos que conseguem se afastar da massa e fazer um trabalho, muitas vezes, menos lucrativo, mas com realização pessoal maior. Afinal, pelo que eu me lembro, o mundo continua capitalista.
parabéns pelo blog…voltarei sempre.
bom fim de semana.
bjO=]
Galileu on fevereiro 6th, 2009
@Camille Paixão
É, vai depender de cada um. Tem gente que consegue ficar “no falso” por tempos e não se incomoda, já outros.. Mas quem garante que a Nelly “original” era a primeira? A gravadora ao contratá-lo pode ter imposto aquela imagem e ela teve que aceitar..
Vai saber.. Muito obrigado pela visita e volte mesmo! Já assinou o RSS?
Abraço.
Silas on fevereiro 7th, 2009
Nossa, mt legal esse post.
Acho q ela fez a escolha certa, deve ser frustrante pra um artista ser esquecido e apagado da midia, depois q se acostumou com os mimos do mercado.
Se ela gosta e e feliz cantando, pq nao?
Como diz o ditado: Pagando bem, q mal tem??
E ficou bem legal o cd dela, e mais uma vez, parabens pela excelente postagem!
Galileu on fevereiro 7th, 2009
@Silas
Também acho que ela fez a escolha certa. A música agora passa a agradar mais gente e consequentemente a vender mais.
Muito obrigado pelo comentário. São eles que me motivam a escrever mais e mais.
Silas on fevereiro 8th, 2009
Opa, de anda.
Te achei na comunida Maura me ajuda, sobre brasileiros q querem ir pro canada, e vi seu blog, achei mt interessante esse post!
Parabens!
Tiago Celestino on fevereiro 9th, 2009
Acho que quando existe um apelo sexual, qualquer cantora e cantor vende mais. Isso tá na cara. Realmente, o caso Nelly Furtado é um bom exemplo de como o apelo sexual pode refazer a carreira de um artista.
Excelente post Galilas.
Abs
Deka on março 11th, 2009
Tratando-se de propaganda, acho a idéia de “para as massas” falida.
Hoje em dia, o consumidor quer se sentir importante. Nesse caso, nada mais eficaz do que um anúncio específico e direcionado.
Acredito que este é o motivo do investimento atual em mobile e marketing digital. É muito fácil atingir um público segmentado através destas mídias.
Já tratando-se de produto e/ou comércio, o “popular” ainda rende muito.
E quanto ao “case” Nelly Furtado, sensualidade sempre vende mais do que boa música.
Igor M. on abril 9th, 2009
Olha, achei o texto legal, bem interessante.
Mas é a constatação do óbvio. Se for à massa e ela gostar, pode vender e muito. Se assumir pra caminhos mais estranhos, pode não vender tanto como um artista de hip-hop, por exemplo. Mas o que se deve prezar é, sobretudo nestes dois mercados, a qualidade no que fazem.
Abraço!
Tatiii Almeida on abril 14th, 2009
Eu acho que quando o artista foca em um nicho, ele vai ganhar menos a curto prazo, em compensação este público é fiel. Ele sempre vai ganhar com os fãs dele, porque é original.
Já quando você trabalha para agradar a massa, é sucesso a curto prazo, o trabalho acaba sendo ainda maior, porque é preciso se renovar rapidamente, para não ficar enjoativo (pq é escutado demais) ou ser trocado rapidamente. Afinal, quantas aparecem depois, iguais, com os mesmos ritmos, danças, caras e bocas. E a mesma quantidade de publicidade.
E público fiel mesmo, não baixa música na internet, faz questão de comprar. Mas isso acho que as gravadoras vão demorar para entender, elas já percebem que estão perdendo grana com a pirataria virtual, mas não sacaram que o problema é que tudo é muito igual. E se todos tem, é mais fácil encontrar e copiar.
Eu sou marketeira e publicitária. Sou a favor dos artistas de nicho. Prefiro ganhar pouco, mas ganhar sempre.
Ótimo post, parabéns.
Tatiii Almeida on abril 14th, 2009
Mas pensando na artista, se ela ficou feliz com a proposta de mudança, ela fez o trabalho. Acredito que sendo a Nelly quem é, uma artista desde criança que sonha com o mundo da música, tentar explodir para sentir como é o sentimento de estrelato, faz parte do processo. Se ela não quisesse, sinceramente, ela teria a opção de não fazer, afinal é ela, a imagem dela. Ela tem noção disso, certeza que enquanto ela pensava em mudar, ela imaginou todas as críticas que viriam dos fãs originais.
Eu penso assim, se ela é uma artista que canta principalmente para ela, e não para agradar a nós, ou a um público específico, ou a uma massa, ela tem todo direito de pirar o cabeção e fazer algo diferente, é querer saber o que é estar no topo, é entender como é o mundo dos top’s. Pronto, ela já experimentou, cabe a ela, agora, decidir se fica com este mundo da massa, ou faz o som dela, ou fica com os dois, e agrada os dois publicos, faz 2 tipos de album.
Se ela quiser, ela faz os 2. E encontra as gravadoras certas.
Tatiii Almeida on junho 20th, 2009
hahah, que demais, agora que me liguei. Eu te sigo no twitter, não tinha me ligado que já tinha escrito no seu blog. Massa! Bjos.