terça-feira, 28 de agosto de 2007

Um Brasil Ignorante

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O povo brasileiro é ignorante. Ahh, se eu ganhasse uma ação do Google cada vez que um conhecido, amigo ou parente me disse, com muita confiança em seu senso crítico, que o Brasil está como está por causa do povo, o brasileiro ignorante, que vota mal e errado, que escolhe para seus governantes o ratos que vemos por aí. E fica o consenso geral, assinado por todos, que a culpa é do povo e de sua falta de cultura, sua capacidade de ser manipulado facilmente.

Eu mesmo já o disse em certos momentos e sei que não é uma afirmação de todo mentirosa. Temos sim um povo ignorante, repetindo infinitamente os mesmos erros, elegendo infinitamente os mesmos erros, sendo sempre massa de manobra. A culpa é do povo brasileiro, inteiramente do povo brasileiro.

Não podemos, porém, cair no velho erro de pensar que não somos parte desse povo, dessa ignorância gritante e alastrada. E este é a grande falha daqueles que proferem aquela frase tão verdadeira: imaginam-se alheios aos problemas, isentos de culpa, “os iluminados”, únicos competentes para enxergar a realidade nacional. Lavam as mãos e desdenham do povo, do povo ignorante a que pertencem, repetindo a tolice do “eu avisei, devias ter-me escutado”.

Ao meu ver, são estes os mais tolos. Os que se vêem tão melhores que o restante, tão mais educados e letrados, tão mais espertos e críticos, tão mais capazes de definir os rumos da nação. Será mesmo que são capazes? Não acredito nisso.

Mas lá vem eles outra vez, achando-se superiores, únicos capazes de fazer a diferença, um verdadeiro protesto, de fazer o melhor para o país. E cada vez que o dizem, vejo despontar, tímida mas forte, uma vontade de não deixar que o povo, esse povo tão burro, decida o rumo do país, uma vontade de deixar aos letrados, aos escolados, aos que possuem senso crítico, ou seja, pra eles próprios (na cabeça deles, é claro), as rédeas do país.

No fundo, acham-se os únicos capazes de governar o Brasil.

Não nos esqueçamos, no entanto, do passado. Já houve um tempo em que um grupo disse o mesmo que eles agora dizem: que o povo não era capaz de definir o que será do país, que a maioria da população escolhe mal, que a segurança nacional não pode ficar nas mãos ignorantes do povo. Não nos esqueçamos de 64.

Da próxima vez que pensemos em dizer que o povo é ignorante, lembremo-nos que somos parte desse povo, que é nosso dever findar a ignorância e mostremos a todos que as ignorâncias, seja do rico ou do pobre, podem ser superadas. Basta lembrarmos que somos, enfim, um povo.

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