terça-feira, 1 de abril de 2008
Pequena Divagação Sobre A Vida, O Universo e Úteros
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Depois que deixamos o útero de nossa mãe, a vida fica…complicada. Afinal, a barriga de nossa progenitora é um bom lugar pra viver. Aquecimento central, proteção contra invasores, serviço de limpeza e comida de graça são só algumas da vantagens. Até podemos chutar o senhorio quando os serviços não nos agradam. Tudo bem que é apertado e, eventualmente, o pênis de um cara pode te cutucar, mas dá pra se acostumar. E aí somos chutados pra fora.
Nove meses de promessas de conforto e mordomia eternos e de repente tem um cara batendo nas nossas bundas, dando aquelas palmadas como de dizendo, nada sutilmente: “Ei, garoto, você não tem mais aquela folga de antes. Bem-vindo ao grande útero coletivo que chamamos de mundo.”
E esse útero não é tão quente quanto o anterior, a não ser que você more entre os trópicos. A proteção da mamãe e a comida de graça até continuam lá, mas nem se comparam com as de antes. Nenhuma surpresa que a maioria dos homens passa a vida inteira tentando entrar de volta no útero de uma mulher.
O pior mesmo desta imensa imitação barata do útero materno é algo que não havia lá: outras pessoas. Depois de nascer, já não temos nosso espaço e comida todo pra nós, temos que repartir. É como ter irmãos gêmeos: todos dividindo o espaço e a comida e, se você não der alguns chutes pra mostrar que está no páreo, alguém toma o que é seu. Pela primeira vez na vida, temos que lutar pelos nossos direitos. Mas as falsas promessas não param.
Depois do aconchego da barriga da mamãe, vem a família. Eles cuidam de nós, nos alimentam, nos limpam, nos educam e dizem que sempre, sempre será a sua família a te dar todo apoio e confiança. E então te chutam pra fora de casa dizendo “você cresceu, tem que viver sua própria vida agora, mande um postal de vez em quando, ok?”
E aí está você no meio da rua, segurando a sua vida nas mãos, com um rascunho do manual de instruções na memória e uma total incapacidade de fazer as coisas certas. Mas, ei, não há mais promessas quebradas, não é? Afinal, não há mais ninguém pra nos prometer qualquer coisa, certo?
Claro que não.
O problema é que somos viciados nessas tolas mentiras e, quando não há mais quem as conte, seguimos os caminho mais simples: nos vestimos com a roupa mais bonita, nos arrumamos do melhor modo que conhecemos e saímos por aí procurando alguém pra nos contar pequenas e doces mentiras no meio da noite. Saímos em busca do útero perdido. E mesmo quando encontramos alguém pra trocar falsas esperanças de carinho e conforto, precisamos de mais e começamos a fazer promessas impossíveis a nós mesmos, só pra quebrá-las em seguida.
Dizem que a vida é feita de escolha, mas esta é só meia verdade. A vida é feita de escolhas que não queremos fazer e situações em que não queremos estar e é por isso que nos entupimos de promessas quebradas a todo instante. Porque não queremos fazer estas escolhas ou estar nessas situações, queremos a calma e a mordomia do útero perdido e, no fundo, todos sabemos aquela verdade óbvia e ululante: a vida é uma droga.
Ainda assim, dá pra se divertir bastante nela.

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