segunda-feira, 18 de junho de 2007
Open Your Eyes
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Era um amanhecer de inverno e o mundo acordou adormecido. De norte a sul, de Londres a Paris, do Rio de Janeiro a São Paulo, os olhos mantinham-se fechados, pregados, presos sob um sono inexplicável. Os corpos repousavam sobre as camas, desfalecidos, esgotados, recuperando-se do interminável cansaço de uma noite de Julho. Todos dormiam. Mas ali estava ele.
Era o único, o único a despertar. Só ele abrira os olhos ao mundo naquele dia e, atordoado, vagou por horas procurando respostas. Mas estas não havia: o sono simplesmente tomara a tudo e a todos, exceto um único e simples homem.
Tentou trazê-los de volta do sonho. Chamou uma, duas, três vezes; gritou, gritou até sentir a dor consumir sua garganta. Em seu sono profundo, não podiam ouvi-lo. Bateu. Tapas e nenhuma reação. Com socos desesperados beijou as faces indiferentes de seus semelhantes. Bateu à exaustão: nada adiantava.
Sentiu o próprio sangue umedecer suas mãos. O punho latejante enfraqueceu. Jogou-se ao chão, esgotado, consumido, desmoronado. Caído, desejava o sono, o sonho; queria jogar-se, cair no abismo e tornar-se insensível como os demais. Derrotado sobre o chão, tentava dormir, fechar seus olhos, unir-se aos demais. Mas o sono não vinha.
Não havia mais família, amigos ou mesmo desconhecidos com quem partilhar o mundo: estava só. Sobre o corpo inerte de seus pais, chorou. Sobre a amada, derrubou as lágrimas mais duras e beijou-a, mas ela não acordou. Não podia trazê-los, por mais que tentasse.
E então entendeu. Talvez o mundo não acordara naquela manhã pois sempre estivera dormindo. Talvez fora ele o único a abrir os olhos em toda a vida. Talvez, e só talvez, o antes era sonho e só agora ele via o mundo. Saíra da caverna e podia tudo.
Podia tudo, pois nada mais havia. Não havia leis ou deveres, moral ou ética, bem ou mal. Não havia mais religião, pois mesmo Deus dormia. Não havia ideologias, pois só havia suas idéias. Todos os olhos estavam fechados: ninguém enxergaria sues atos, palavras e motivos. Só havia ele, podia tudo.
O mundo então abriu-se diante dos únicos olhos despertos da Terra. Ele caminhou. Os pés calçavam o tênis que tanto almejara, simples de obter na loja sem funcionários. O tempo não mais importava. Fazia tudo que queria e queria tudo que podia. Seus olhos nunca mais fecharam-se ao mundo.
Chegou o entardecer do verão. Ele, sentado sobre a relva de uma enconsta, apreciava as águas que se tingiam de rosa. De algum lugar, brotou um som que há muito não ouvia. Uma voz. Leve tênue, quase imperceptível, mas ainda uma voz. Vinda do nada, acaricia seus ouvidos de um modo há tanto esquecido. Não estava sozinho!
Olhou em volta. Nada. Correu. Onde? Os olhos percorriam a pradaria sem nada encontrar; a voz, cada vez mais fugidia, tornava-se uma fina corda. Agora, mal podia ouvi-la. Não! Não posso perdê-la agora! Não! Os pés entrelaçaram-se e o corpo tombou contra o chão. Ainda tentou reerguer-se, mas a voz sumira.
Não teve forças.
Era o unico de olhos abertos, mas só conseguia chorar.

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