terça-feira, 14 de agosto de 2007

Onde está o ódio?

Ir direto
para os comentários...

Mas o Sol sorria intenso. E seus raios tocavam o corpo do homem, iluminando-o, aquecendo-o, queimando-o. O suor caminhava pelo pescoço, incerto e receoso. As mãos estrangulavam nervosamente o volante do carro, aquele carro lento demais pelas ruas lentas da cidade mais lenta do estado, talvez do país. O homem, sentado na sua raiva contida de quarta-feira, olhava tudo e odiava tudo. Seu ódio crescia, transbordava, e no seu ódio imenso, sentia-se minúsculo, frágil, um nada humano. A angústia da raiva silenciosa contra o mundo o consumia: precisava ver o mundo e odiá-lo mais e mais. Mas o Sol sorria intenso.

Droga, o sinal fechou!

A raiva crescia e o sinal fechado. Onde está esse mundo que odeio? Onde está a tristeza, o ódio, o desamor? Ele queria ver o horror da existência para justificar sua própria feiúra. Era feio, feio e grotesco e deformado em sua mente conturbada. Queria o ódio. A única coisa que poderia compreendê-lo, a única coisa que poderia redimi-lo. Por Deus, o ódio!

Mas o palhaço irradiava felicidade.

O palhaço, jogando seus malabares e sorrisos bobos, irradiava uma felicidade odiosa, repugnante. As roupas rasgadas e sujas reluziam graças àquele Sol imbecil que insistia num sorriso, sem lembrar da miséria do mundo. O palhaço pulava e brincava e jogava os malabares pelo céu e ria, aquele riso irritante, que começava a impregnar-se no homem, em suas roupas, em sua pele, em sua angústia calada.

E veio pedindo a recompensa pelo seu esforço imbecil no pior dos mundos possíveis. E o homem o olhava e odiava, pois o bobo era maior que ele, maior que o ódio, maior que a fraqueza de sucumbir à tristeza. E ele, homem diminuto, verme, sumia diante da felicidade irradiada por um simples palhaço. Um simples palhaço!

Mas vieram as moedas e o poder. O tolo olhou-o. O homem tomou o dinheiro nas mãos minúsculas e, olhando firme ao gigante fora do carro, deixou as moedas escorrerem por seus dedos. O metal cintilou ao ser abraçado pelo chão. O palhaço, sem entender, baixou-se para pegar o dinheiro. E o homem, pela primeira vez em meses, sorriu.

O sorriso negro da satisfação. Curvado diante dele, aquele ser em sua imensidão de felicidade e sorrisos. Ele, ínfimo, olhava o palhaço rebaixar-se, cair ao chão por míseras moedas. Sentiu algo negro crescer dentro de seu ser, negro e forte, negro e duro, negro. O orgulho cristalizou-se num simples instante daquele dia ensolarado. Ele, no carro, o palhaço, tocando o chão. Ele poderoso, o palhaço, submisso. Sentia-se, enfim, maior. Sentia, enfim, o ódio.

E o sinal abriu.

Deixar comentário