segunda-feira, 2 de julho de 2007

O Caçador de Borboletas Azuis

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Era oco. Sentia não ter entranhas, coração, mente. Não havia tempo para entranhas, entranhas não alimentam as crianças. Sentimentos são bonitos, beleza, porém, é desperdício. Melhor ser mediano, sensato, submisso. Era oco. Só lhe sobrava aquele vazio branco, pingando dentro de sua casca de homem.

E um dia, no lago acinzentado e mecânico, apareceu uma borboleta azul. Ele recebeu em sua face aquele brilho ofuscante, tão maior que ele. Não pôde tirar seus olhos: era sua salvação. Aquela borboleta azul poderia preenchê-lo, torná-lo completo. Se tivesse aquele brilho para si, brilharia tão intensamente quanto ele. Se o possuísse, tornaria-se o próprio brilho.

A caçada começou. Correu quilômetros sem cansaço, empenhou-se como nunca, planejou os mais diversos estratagemas, nadou por horas em busca de sua borboleta azul. Não mediu esforços.

Enfim a teve.

Ali em suas mãos, as asas mexendo-se lentamente, o objeto de desejo mirava-o através de seus olhinhos tontos de borboleta. Era sua. Um prazer tomou-lhe o corpo, sentiu o vazio sendo expulso, sentiu metamorfosear-se na borboleta azul.

Em um mísero instante.

A prazer se foi. A borboleta, presa entre as grades dos dedos do homem, já não tinha mais brilho, era menos graciosa, menos bela, menos única. Não era nada do que antes aparentava. E a mão fria esmagou-a na fúria de não conseguir completar-se. Teve-a, mas não pôde dela sorver o brilho. O vazio transbordou novamente em seu ser.

Mas então passou outra borboleta azul sobre a superfície cinzenta do lago e a caçada recomeçou.

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