domingo, 1 de abril de 2007
Ingenuidade
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Eu não escrevo bem. Nem letra bonita tenho, escrevo mal, em ambos os sentidos. Não consigo escrever do jeito que todos gostam, com todas aquelas besteiras como coerência e coesão. Sou prolixo, sou pró-lixo, vou pro lixo.
Dane-se a coerência! Dane-se a coesão! Danem-se todos! Que vão povoar os textos dos grandes autores! Deixem-me com a minha incoerência, meus textinhos ruins. Escrevo mal, pouco me importa. Não mereço textos bons.
Se não escrevo bem, também não escrevo por fama ou dinheiro. Não porque não os quero. Mas meus pobres textos, travestidos em sua humildade de palavras sujas e tolas, não podem me trazer nada disso. Se trouxessem, eu não os negaria. Sei, entretanto, que teria de melhorar meus textos para conseguir dinheiro e fama. E, já disse, não escrevo bem, nem pretendo fazê-lo.
Muito menos escrevo por prazer. Ao jogar essas toscas palavras sobre a folha em branco, não sinto emoção alguma, amor, ou ódio, tanto mais prazer. Aliás, imagine a cena macabra: o escritor em tremeliques de prazer ao escrever, em orgasmo silencioso. Não, não quero recompensa ao escrever, prazer ou dinheiro. Escrevo mal, e escrever mal não traz dinheiro, fama ou prazer.
Se escrevo puramente pra opinar sobre tudo? Eu diria que não. Certa vez, disseram-me que sou um fanático por opiniões. Adoro-as, acalento-as, toma-as no colo e embalo-as como a um bebê. Adoro sim as opiniões, elas dizem muito. No entanto, não sei opinar sobre tudo, e isso seria uma grande tolice. Meus textos não são opiniões, são ruins e textos ruins não carregam mensagens ou tentam levar meu ideal para outros. Nem mesmo tenho um ideal para levar. Escrevo mal, sem opiniões, prazer ou dinheiro.
Um amigo disse-me: escreves pra ser lido. Queres ser amado, aclamado, aplaudido. Mentira. Não escrevo pra ser amado. Ser amado pelo que escrevo não significa nada. Ser amado pelo que sou, isso sim é importante. Além disso, quem amaria a meus simples textos? Escrevo mal, e ser louvado por isso seria loucura.
Por que então escrevo? O que me leva a encher a folha de palavras tolas, encadeadas numa confusão sem sentido de asneiras? Sou um bêbado das palavras: toma-as na mão e enebrio-me com elas. Cambaleando, aprecio-as.
Mal, sem prazer, dinheiro, fama, ou amor, escrevo por ingenuidade. A ingenuidade de uma criança que brinca com as palavras. Pouco sabe delas, mal sabe usá-las e manuseá-las, mas as toma e deliciasse com elas, indiscriminadamente.
Sou uma criança, ingênua, perdida num mundo de palavras, dinheiro, fama, opiniões e amores. Mas só a ingenuidade me guia. Só a ingenuidade me salva.

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