domingo, 27 de maio de 2007

Haja Fôlego.

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Uma dor de cabeça começou a incomodar-me faz uns dois dias. Eu não conseguia mais conversar, ler ou resolver dilemas físicos sobre aspectos fundamentais da matéria em nível quântico. Fortes pontadas estavam quase me enlouquecendo. Tive então de sair em busca de um tratamento antes que eu perdesse a pouca sanidade que me resta.

Tentei primeiro os remédios comuns. Um comprimido, dois comprimidos, toda a cartela. A dor não só não diminuiu como também aumentou e muito: parecia que o Latino estava cantando todas as músicas de sua carreira dentro da minha cabeça. Com o tempo, acostumei-me com a dor. O único problema era o sono: qualquer som causava pontadas de dor que me impediam de dormir.

Quando comecei a emagrecer e ter problemas de memória em razão do sono perdido, vi que era hora de encontrar uma solução. Consultei então meu guia espiritual e, seguindo seus conselhos, passei a dormir em uma espécie caixão de cheio de água à prova de som.

De início foi difícil. Qualquer movimento era um tsunami particular e tive que adaptar um aquecedor para aguentar essa onda de frio. O lado bom foi o significativo aumento do meu fôlego. Com os constantes quase-afogamentos, meus bronquíolos aprenderam a virar-se. Conseguia ficar até oito minutos debaixo da água e ainda emergia e cantava uma bela canção. Sem pausa pra recuperar o fôlego.

Graças a minha mais nova e fantástica habilidade, uma nova carreira abriu-se à minha frente: comecei a praticar apnéia.

Minha carreira neste esporte alcançou níveis estratosféricos. Eu era o único mergulhador que conseguia tirar uma rápida soneca sob a água. Comecei vencendo campeonatos na piscina de casa, passei então a competir no clube. Daí para vencer o Campeonato Brasileiro de Apnéia foi um pulo.

Medalhas, prêmios, vitórias e pulmões que absorviam mais ar que toda a população da Guiana. Não a Francesa, só a Guiana mesmo. Recordes procriavam-se como coelhos. Jornalistas entrevistavam o novo ícone da apnéia mundial. Fãs pulavam a minha frente e pediam para eu segurar o fôlego para verem. Os outros mergulhadores odiavam-me e almejavam saber o segredo de meu sucesso. Assédio, sucesso, fama, inveja.

Até minha vaga no Pan estava garantida. Eu estava no topo.

O anti-dopping, porém, existe e não simpatiza comigo. O tal exame arruinou tudo. Dois meses depois do início de minha meteórica carreira esportiva, descobri o pão de queijo da Tia Hermengarda carregava um psicotrópico pesado. Surpreendente saber que sua maravilhosa incursão no esporte acabou porque um parente seu está envolvido com o narcotráfico.

Minhas medalhas foram tiradas e fui expulso da Confederação internacional de Apnéia. A dor de cabeça sumiu assim que parei de ingerir os viciantes salgados da Tia Hermê. E cá estou, sem medalha ou dor de cabeça.

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