domingo, 17 de junho de 2007

Feel the Silence

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Por muitos anos, eu lutri o hábito de ligar a tevê logo que chegava em casa. Era quase um ato involuntário, um reflexo condicionado dia a dia. Qualquer coisa que fizesse, seja comer, dormir ou estudar, eu antes ligava a televisão. Podia mesmo nem prestar atenção no que ali aparecia: simplesmente a ligava pra fazer “fundo musical”.

Nunca questionei tal hábito. Veja bem, era um hábito comum, um ato qualquer executado por simples mecanicidade, como comer ou ingerir quantidades exorbitantes de álcool aos finais de semana. Jamais busquei as razões disso, pois elas pareciam não existir.

Hoje, porém, vejo aquela atitude de uma nova ótica. Eu fugia do silêncio. Ao ligar a televisão, enchia logo a casa de sons, vozes estranhas e tão familiares, preenchia o imenso silêncio do lar. Deixava o barulho da rua para mergulhar a casa no barulho. Evitar o silêncio foi tudo que sempre fiz.

Vivemos sempre evitando o silêncio. Fugimos do silêncio em todo instante. Quando sós, logo ligamos o som ou a tevê. Quando com alguém, aquele silêncio no meio da conversa torna-se rapidamente constrangedor. Saímos do pesado silêncio de nossos lares para ir a festas cheias de som e conversas a alturas ensurdecedoras. Odiamos o silêncio.

O silêncio nos faz pensar. E, Deus, como odiamos pensar! Preferimos o som, a bagunça, pois enchem os olhos e a mente: só absorvemos, não precisamos refletir. Refletir , afinal, é doloroso: pensar sobre o que fazemos de nossa vida, escolhas e atos remói nosso interior.

Ao pensar, surge aquela angústia do “poder-ser”, aquela sensação do nada devorando o peito. E aquilo vai caminhando pelo corpo, sufocando, irritando, revolvendo dentro de você. E você quer cravar as unhas na pele e retirar aquilo de dentro de si. Libertar-se desta maldita sensação de fazer tudo errado com sua liberdade. Rasgar-se.

Mas você liga a tevê e continua fugindo.

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