quarta-feira, 14 de maio de 2008
Esse Lado Para Cima
para os comentários...
O problema da vida é não ter um manual de instruções. Ou, se tiver, ele está em alguma dessas línguas para qual ninguém dá bola, como o esperanto ou o alemão. Ou, se você pensar bem sobre o assunto – o que, aliás, exige tempo e pessoas que te sustentem – o manual pode até existir e estar legível, mas nenhuma criatura orgânica tem paciência suficiente para ler, em especial o capítulo sobre não se meter na vida dos outros, uma atitude que dificulta bastante as coisas. Principalmente se levarmos em conta o segundo grande problema da vida, o tempo livre.
Os seres vivos pensantes (e a grande maioria dos humanos) odeiam o tempo livre, algo um tanto preocupante, já que a vida consiste basicamente disto. Existem, aliás, alguns pensadores (e também alguns filósofos humanos) defensores da definição de vida como “uma grande quantidade de tempo desocupado entre o nascimento e a morte”, uma posição amplamente combatida pela maioria dos seres vivos, que prefere descrever a vida simplesmente como “uma porcaria”, o que, se você me permite a intervenção, considero absolutamente correto, principalmente em tardes tediosas de domingo.
Por sorte, alguém um dia decidiu ocupar o tempo livre, fato que diminuiu incrivelmente as taxas de suicídio, exceto, obviamente, no domingo à tarde. A idéia espalhou-se rápido, e logo estávamos todos ocupando nosso tempo das mais variadas formas, como leitura, cinema e apostas no jogo do bicho, o que tornou o outrora chato tempo livre em uma atividade divertida e, se você tivesse alguma sorte, até lucrativa. O grande vilão redimira-se e, em um clichê imenso, agora trabalhava para o bem da humanidade.
Como todos sabem, não durou muito. O trabalho surgiu como nova forma de fazer o relógio andar mais rápido e não demorou em tornar-se uma obrigação, crescendo até o ponto de ocupar quase todo o tempo livre de que dispúnhamos, e mesmo o que sobrou limitou-se a ser ocupado por reclamações sobre o trabalho e brigas familiares. A leitura e o cinema, só nos fins de semana. O jogo do bicho, proibido.
Certas pessoas até disseram aos pensadores (e para alguns filósofos humanos) que mudassem sua idéia sobre vida, já que agora não mais é feita de tempo livre, mas de trabalho e esporádicos momentos de tempo livre. Os pensadores firmemente negaram a situação, afinal nunca conheceram o trabalho, pois tinham quem os sustentasse.
Ter um emprego, pelo menos, garante às pessoas que não tenham tantas decisões a fazer, o que deixa a maioria bem feliz, já que ninguém tem a menor idéia do que fazer com decisões. E isso tudo porque ninguém se interessou em ler o manual de instruções da vida e, quando alguém deu a brilhante sugestão de dar uma lida no tal livro, ele já estava há muito perdido debaixo de uma das almofadas do sofá, provavelmente justamente aquela em que o imensamente gordo Tio Arlindo está sentado.
Vamos encarar, amigos. Ninguém sabe direito o que faz, por que faz ou como vai pagar o supermercado esse mês, e por isso estão todos assustados, desorientados e assistindo a novela das oito, na falta de um objetivo de vida melhor. Nenhum manual e muito tempo livre: as razões de todas as desgraças do mundo. Mas também da maioria das alegrias.

3 comentários. Viva!
Sobre comentários antigos: durante a migração do Ingenuidade para a rede Influxo.org, comentários anteriores a 2008 acabaram se perdendo. Estamos trabalhando para recuperar todos.
15 de maio de 2008 às 14:08
Vou procurar tal manual nos sebos daqui, quem sabe não encontro :~
15 de maio de 2008 às 16:30
Convenhamos, caro Ingênuo: se tal manual por acaso exisitir, será o único livro merecedor da fogueira…
17 de maio de 2008 às 9:19
Concordo com o comentário acima, não sei se valeria a pena ter um “manual”…E quanto ao texto eu concordo com você, as pessoas adoram qnd tem alguém que tome decisões por elas, por isso em um grupo de pessoas sempre existe um líder (que é aquele que toma as melhores decisões para o bem do grupo e que acaba influenciando os outros), por isso existem governantes, por isso as pessoas se submetem a um emprego às vezes não tão interessante, por isso elas assistem a televisão, por isso…
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