quinta-feira, 23 de agosto de 2007

Eles não vêem.

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No jardim de flores brancas, a velha cadeira de balanço. Parada. E a brisa de inverno vinha fria, tocando de leve os pilares de casa e o rosto da mulher. Ela sentou no chão, aquele chão fofo e úmido do jardim, cruzou as pernas sobre a relva, não sem sentir uma pequena dor na coluna. Já não és uma moça, Júlia, já não és nova.

A curva da estrada, na entrada da pequena chácara, olhou fixamente pra mulher. Eles não vêm. Não lembram mais. O rosto da mulher se franziu, os olhos fecharam, levantou a cabeça e sentiu o Sol. Ah, o Sol! O Sol sempre estaria ali, não se esqueceria dela e com seus raios sempre iria visitá-la, aquecê-la quando eles já lhe negavam o calor de que ela tanto precisava.

Uma lágrima ameaçou fugir do poço azul dos olhos da mulher. Por que a deixam? Que ela fez de errado? Seria seu destino ser sozinha? Eles não viriam?

Pouco importa. Danem-se todos! Vão para o Inferno! Quem precisava deles, afinal? Teria sempre o Sol, não precisava de mais ninguém. Teria sua casa no campo, seu jardim de flores brancas e o vento de inverno, o livro amigo e a cama fofa para receber e curar suas dores. Que se explodam, aqueles inúteis!

Um som vem pela curva e ela já se esquece das ofensas, é só perdão, mas não são eles. Calmo, o cavalo a olhava parado. Imponente, negro, imenso, na entrada da chácara. Ele a olha. Que faria ali? De onde viria? Por que estava ali, imóvel, admirando a impotência idosa da mulher? Fixamente, seus olhos densos se fundem com os delas. Ali, crina ao vento, o cavalo. Ali, sobre o chão, a mulher. O Azul e o Negro unidos.

E ela estava livre. Solta, sem dores, sem problemas, sem solidão, sem eles, só o galopar do cavalo, não mais presa ao solo: pelos cabelos brancos, a brisa do inverno. Voava! Tanta liberdade em um simples olhar de um cavalo. Tanta vitalidade em uma brisa de inverno.

Mas o carro chega. A buzina cortante atravessa o jardim das flores brancas. O cavalo dissipa-se numa nuvem negra pelo ar. Eles vieram. Eles lembraram. A velha sentada ao chão, ao chão úmido e fofo, vê o carro parar em frente ao portão. Ela chora.

Eles vêm, mas não vêem. E o cavalo se fora.

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