terça-feira, 4 de novembro de 2008
Da Natureza Das Coisas Inúteis
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Recebi outro dia uma correspondência do governo. Como todo bom cidadão brasileiro, minha única reação ao notar que o governo lembrou de minha existência foi pensar “desdedado maldito”, logo imaginando que nosso nobre líder teria criado mais algum imposto ou, pior, estaria me convidando pra uma pelada no Catete.
Em todo caso, com uma melhor olhada, percebi que a carta era uma resposta a um pedido que eu fiz a uma instituição pública, poucos dias antes. Estranhei, afinal qualquer instituição pública de autoridade demoraria três meses para responder e enviaria sua resposta em edital, com três cópias autenticadas em cartório e alguns desvios de verba. O que não era o caso, exceto talvez pelos desvios de verba.
Por alguns instantes, fiquei sem reação diante da chocante conclusão: o funcionalismo público foi…(Deus, como é difícil dizer isso)…eficaz.
A carta tratava sobre o meu pedido de segunda via do CPF, aquele cartão azul tão inútil quanto a dignidade humana em um baile funk. O CPF, aliás, faz parte da Lista de Coisas Que Me Intrigam.
Lista de Coisas Que Me Intrigam:
- CPF
- A Pergunta Para A Vida, O Universo e Tudo Mais
- A Existência de Heroes
- Publicitários
- Instituições Públicas Eficientes
- Bancários
- Gente Que Gosta De Entrar Em Comunhão Com A Natureza (E Provavelmente Com Alguns Parasitas Silvestres)
O Cadastro de Pessoas Físicas está na lista por uma simples razão: sua finalidade é tão intrigante quanto A Pergunta Para A Vida, O Universo e Tudo Mais, sua existência é tão inexplicável quanto a de Heroes e publicitários, você o usa com a mesma frequência que encontra Instituições Públicas Eficientes e ainda gosta do CPF tanto quanto gosta de Bancários e Gente Que Gosta De Entrar Em Comunhão Com A Natureza (E Provavelmente Com Alguns Parasitas Silvestres).
Pense bem, meu amigo. Pega lá seu CPF. Um cartão magnético azul, até bonito, eu diria, com seu nome, seu número de CPF, sua data de nascimento e só. Isso mesmo, SÓ. Não tem nem uma foto três por quatro vagabunda pra você ser zoado pelos amigos. Não serve pra provar que você é você, ou nem mesmo pra dar carteirada em funcionários públicos (”Você sabe com quem você tá falando? Sou um cidadão brasileiro, olha aqui!”).
A parte magnética do cartão, você não vai usar nunca. Você não leu errado, não, eu disse N-U-N-C-A. Não existe uma roleta sequer em toda face desse diminuto planeta que aceitará seu belo, porém completamente inútil, Cadastro de Pessoas Físicas. Seu dinheiro comprou um cartão magnético que não serve nem pra peso de papel.
Toda vez que olho pro meu CPF, amigo, tenho só uma certeza: algum parente de algum parente de alguém importante tem uma empresa de cartões magnéticos. Quisera eu ser ele, meus amigos, quisera eu ser ele.

3 comentários. Viva!
Sobre comentários antigos: durante a migração do Ingenuidade para a rede Influxo.org, comentários anteriores a 2008 acabaram se perdendo. Estamos trabalhando para recuperar todos.
4 de novembro de 2008 às 12:28
Uns amigos meus, que moram em Contenda, perderam o último ônibus um dia e ficaram “presos” em Curitiba. Vá ao Google Maps e faça um caminho qualquer de Curitiba a Contenda. É capaz que ele peça para você seguir por alguns quilômetros a nado em algum rio.De qualquer forma, discutiam o que iriam fazer quando um deles sugeriu de dormirem dentro de uma agência bancária, aquelas com caixas eletrônicos. Se os mendigos podem, por que não poderiam também? Só que ninguém tinha um cartão de banco para abrir a porta, tentaram o CPF e , voilà, tinham um abrigo. Assim eles descobriram a primeira função do CPF. A segunda é permitir que estranhos que o encontrem abram contas nas Casas Bahia em seu nome.
4 de novembro de 2008 às 15:00
É, Cássio, e, como todo mundo sabe, a terceira função é garantir que a Receita Federal possa acabar com você. Nisso, claro, eles são eficientes.
13 de novembro de 2008 às 16:15
É verdade. Nem tinha parado pra pensar nisso, mesmo porque eu nem olho meu CPF, de tanto ter que usar o número já decorei
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