terça-feira, 24 de julho de 2007
Curitiba, 22 de Novembro de 2005
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Cara Luísa,
A casa escura assiste-me escrevendo essa carta, debruçado sobre a escrivaninha de madeira de lei, a escrivaninha que você tanto adorava. Alguns livros continuam repousando sobre o chão, em pilhas aleatórias por todo o quarto, colocadas aqui e ali, criando aquele ar de desordem e aquele cheiro de páginas antigas que tanto apreciamos. Estou sozinho.
As portas, trancadas na minha constante paranóia que bem conheces, gemem sob a força de rajadas de vento que cortam a cidade e esse som, esse som estranho de algo querendo entrar, penetrar, possuir o interior de toda a casa, esse som de um força descomunal tentando quebrar barreiras, estranhamente me lembra de ti.
Estou sozinho e o vento quer entrar. Está é a razão desta carta, a solidão.
Não odeio a solidão, aprecio-a. As pessoas não são bem-vindas, meu mundinho todo próprio, construído de divagações extensas e esse senso de humor peculiar (por falta de adjetivo melhor), esse meu universo interior nunca recebeu a visita de outra pessoa. A solidão sempre foi minha melhor companheira, trazendo seu sábio silêncio quando eu tinha os maiores questionamentos: sempre me deu as melhores respostas. Isso foi antes de você.
Você e sua risada aérea, inesperada. Você e suas frases insólitas nos momentos mais sérios. Você e seus telefonemas de sábado à noite, quando o mundo parava para ouvir-nos conversar. Você e a meia vermelha, manchando o lençol branco da cama pela manhã. Você, Luísa, e sua filosofia barata de freqüentadora de bar.
Você me tirou a solidão, arrancou-a de dentro de mim, me deu a ilusão de que não preciso ser sozinho. Por que precisava me mostrar que existia alguém no mundo como eu, tirar de mim a triste satisfação de ser único e solitário? Por que me mostrar que eu não estava, enfim, só?
Suas razões não sei, mas você o fez.
Você rompeu as trancas, escancarou as portas e, na sua força de mulher, preencheu toda a sala, ressoando por todas as paredes e móveis. No seu sopro renovador, moveu tudo aqui dentro, revolveu, abalou minhas mais sólidas certezas. E mesmo com as portas já fechadas, com o silêncio restaurado e tudo de volta ao lugar, você ainda permanece aqui, ressoando por todas as paredes.
Por favor, quebre as trancas outra vez, pois já não posso sair. E só você, só você, cara Luísa, pode me tirar daqui.

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