sexta-feira, 6 de julho de 2007
Cinzas no Céu e um Cego no Mar
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Eu, ao acordar, vejo minha morte passando diante de meus olhos. Imagino como seria o mundo logo após o fim de minha existência. Primeiro, os jornais e revistas alardeando a todos os cantos, direito a um minuto de silêncio no Fantástico seguido de crônica do Bial.
Provavelmente o Gugu faria alguma retrospectiva sensacionalista de minha vida, o Vídeo Show mostraria todas minhas aparições na tevê e a Silvia Abrão entrevistaria um filho nunca reconhecido, resultado de um affair relâmpago com uma atriz global.
O funeral mobilizaria milhões de pessoas, chorando deseperadas. Aliás, o funeral seria um espetáculo à parte. Não quero ser enterrado debaixo de algum canteiro de flores mal cuidadas: sou alérgico a flores. Tenho um pouco de claustrofobia, caixões nem pensar. Cremação. É, cremação é mais cool e ocupa pouco espaço, apesar de contribuir para o aquecimento global (desculpa aí, tio Al). Mas nada de jogar as cinzas no mar ou ser cheirado por um velhinho maluco. Clichê, pô.
Cremação e cinzas colocadas dentro dum rojão pra explodir no reveillon do Rio. Posso até ver as manchetes: “Hugo ilumina Copacabana”. Isso sim é homenagem póstuma.
Duas horas depois do funeral, a partilha dos bens. Parentes distantes apareceriam, o filho ilégitimo ia pedir o DNA, as ex-mulheres diriam que eu não pagava pensão. O testamento apareceria, ninguém sabia dele. Sem essa de deixar tudo pro cachorro ou doar pra caridade.
Todos os inúmeros imóveis, as maravilhosas motos, os caríssimos carros, a biblioteca imensa, as ações no Google, o meu iPhone personalizado, as lucrativas empresas, a marca registrada e os originais dos escritos de Guimarães Rosa, adquiridos com muito esforço, iriam todos para um velho senhor, cego, cabelos brancos, os poucos dentes amarelos, que mora numa cabana no meio da Amazônia, sem luxo ou riqueza.
Todos enlouqueceriam. Meus cinco filhos (legítimos e reconhecidos, viu) contestariam o documento. “Estava louco! Lunático! Não é possível!”. As ex-esposas chorariam junto das amantes, numa mistura de frustração e raiva. O cão daria um latido triste por nada receber e voltaria a correr atrás de seu rabo. As atenções do país se voltariam para o casebre rudimentar no meio da floresta, lar do misterioso herdeiro.
Quando perguntado sobre o que faria com o dinheiro, ele só diria:
- Ver o mar, meu filho. Vou ver o mar.

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