terça-feira, 13 de maio de 2008

Capítulo De Um Livro Que Nunca Terminei

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Felipe Carrasco odeia a raça humana. Não seria um problema, afinal é um ódio compartilhado por todos os seres humanos. Já está provado por meio de pesquisas e experimentos que, se lhe fosse dado o poder, qualquer pessoa acabaria com toda a humanidade em um mísero instante, exatamente o que presidentes e primeiros-ministros tentam fazer no dia-a-dia, um trabalho que desempenham bem, mas lentamente.

Não seria um problema, se Carrasco só expressasse esse ódio como qualquer homem normal: ofensas às telefonistas, lutas de boxe e filmes de ação. Ele, porém, não é tão racional. A racionalidade é tudo o que ele mais repudia em seus semelhantes. Algo que deixou bem claro certa vez ao publicar um extenso artigo científico, baseado em intrincados raciocínios e uma sólida argumentação lógica, sobre quanto o pensamento inteligente tem sido prejudicial à vida, ao planeta e a basicamente tudo que existe, existiu ou existirá no Universo. Um passo errôneo e imbecil da evolução, como ele descreveu. Felipe Carrasco tem essas crises de megalomania eventuais.

O texto não foi bem recebido pela sociedade científica ou mesmo pela sociedade em geral. Na verdade, o texto não foi nem mesmo recebido pela sociedade científica ou em geral, já que as pessoas não se importam com o pensamento lógico, principalmente os cientistas. Os poucos que leram a publicação, puramente por possuir muito tempo livre, ficaram tão surpresos com o fato de alguém estar combatendo a inteligência deles ao invés de questioná-la que simplesmente não conseguiram esboçar qualquer reação.

Pior que a rejeição só é a indiferença, já diria alguma articulista de revista feminina. E Carrasco não lidava bem com a indiferença, algo a ver com uma infância pobre no subúrbio, pais ausentes e um hamster de estimação. É de conhecimento geral que esses fatores juntos criam uma intolerância aguda à indiferença, sobretudo em razão do hamster, uma espécie egoísta e narcisista que reina no quesito “ignorar dono”.

Carrasco, diante da indiferença total ao seu artigo, fez um plano. Não era um plano muito bom; na verdade, era uma porcaria e ele sabia disso. Era, no entanto, o único modo possível de canalizar sua raiva a algo construtivo que não fosse sair em praça pública atirando aleatoriamente. Afortunadamente, ele agora possuía uma bela quantidade de nada a fazer, já que perdera seu emprego após dizer ao seu chefe que não se preocupasse com seu artigo, afinal aquelas críticas à racionalidade em nada diziam respeito a ele, o chefe. Este achou que Felipe estava usando um modo esperto de insultá-lo. Carrasco também estava achando seu modo de insultar o chefe muito inteligente, isso antes de perder seu posto, seu salário e a samambaia que enfeitava belamente sua sala. Mas agora podia dedicar ao seu plano mais determinação, atenção e rancor.

Não que alguma dessas coisas tenha feito o plano melhorar.

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