quarta-feira, 11 de junho de 2008
As Maravilhas de Ser Pedestre
para os comentários...
Há certos pequenos prazeres em não se ter um carro. Ainda não descobri os que não envolvem algum contato corporal muito íntimo dentro do ônibus, mas estou certo que existem muitos. Sou um pedestre recente, sabe, não tenho muita experiência com a coisa.
Veja bem: eu morava numa cidade de interior. Em cidades de interior você não precisa de um carro pra quase nada, tudo está ali, a poucas quadras. O que não faz muito diferença, afinal não há absolutamente nenhuma necessidade de caminhar poucas quadras pra chegar nos lugares sendo que não há nada pra fazer neles. Cidades de interior são assim: tudo muito perto, tudo muito parado.
Mas eu tinha que fazer faculdade. Sabe como é, faculdade é uma das poucas formas de conseguir que seus pais não te chutem pra fora de casa ou, pior, peçam pra você arrumar um emprego. E você sabe que “pedir” no vocabulário todo especial dos progenitores significa te dar a opção de não ir forçado. Mas isso não vem ao caso.
Os fatos eram esses: sai de uma pequena, calma e extremamente tediosa cidade de interior para uma cidade grande. Isso significa que eu tinha uma idéia muito errada da vida: pensava que o banheiro era auto-limpante e que todas as coisas eram perto de casa.
E eu não ganhei um carro de meus pais (no máximo um tchauzinho e uma nota de doirreal). Aí você me diz: deixa disso, Hugo, é só morar perto da universidade, oras. E você está certo, caro amigo. Não fosse o terrível prazer que Deus tem ao ver-me encrencado (bom, não sei se é Deus, mas tem alguém aí fora que adora ver-me ferrado).
Olha só como as coisas são. A grande maioria dos cursos tem aulas na universidade, como é de se esperar. O meu curso, porém, é diferente: não só tenho aulas lá na universidade como também tenho aulas no Hospital Universitário (que, por sinal, não é dentro da universidade, por uma dessas razões que somente reitores podem explicar). Agora vamos fazer um pequeno exercício mental: suponhamos que a universidade é o ponto A e o Hospital Universitário é o ponto B, insiramos o fator “minha sorte” na equação e chegamos à seguinte conclusão: A é longe pra caralho de B. Como queríamos demonstrar.
Enfim, tornei-me então um pedestre compulsório que tem aulas em dois lugares diferentes, um de cada lado da cidade. Mas ser um pedestre tem seus prazeres, como eu disse no começo do post. Veja por exemplo o semáforo. Deus, como eu adoro semáforos! Eles são o instrumento mais poderoso de um pedestre, sua única arma contra a arrogância dos motoristas: seja o carro mais bonito, caro e veloz, ele terá que parar pra que você passe.
Este é o momento de apreciar o sabor de andar a pé. O momento em que você atravessa a rua, lentamente, passo após outro, olhando fixamente nos olhos do motorista, impondo a ele seu poder, sua força legitimada pela lei. No momento em que o semáforo fecha e você atravessa a rua, você é o leão. O leão feroz que atravessa calmo a savana, digno e imponente, enquanto todos os outros animais esperam, amedrontados e estáticos. Você tem o poder.
No instante em que um sinal se fecha, um pedestre aproxima-se do sentimento de ser um Deus.
Mesmo que o motorista esteja mais preocupado com a gostosa sentada no banco do passageiro.

4 comentários. Viva!
Sobre comentários antigos: durante a migração do Ingenuidade para a rede Influxo.org, comentários anteriores a 2008 acabaram se perdendo. Estamos trabalhando para recuperar todos.
13 de junho de 2008 às 14:59
18 de junho de 2008 às 9:58
Ser pedestre tem uma outra vantagem excepcional: Você contribui, mesmo que pouco, para diminuir a poluição no planeta.Infelizmente, sua descrição de semáforos é falha. Torço para que aonde você more seja diferente, porém em Curitiba, em especial em frente a um dos campus da UFPR, o semáforo é absurdamente desrespeitado. Mas ainda pior é o motorista que não dá o sinal que irá fazer a esquina e você, como pedestre, tem de torcer pra não morrer atropelado. Pedestre aqui no Brasil é tratado como obstáculo na pista, vide que “brasileiro ama carro” né?
18 de junho de 2008 às 15:13
Paulo, aqui em Londrina a coisa não é bem assim.
Bom, pelo menos acho que não, mas, assim, só moro aqui faz uns seis meses.
16 de agosto de 2008 às 11:09
[...] como vocês já viram, sou um desses nobres desprovidos de carro próprio. Nem mesmo possuo uma moto, bicicleta, patins [...]
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