terça-feira, 8 de janeiro de 2008

A Parábola das Berinjelas

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Acredito em Deus. Mas acredito Nele não porque eu ache que o universo é perfeito demais pra ter surgido espontaneamente, ou porque ache o corpo humana um milagre ambulante que só pode ter saído de uma mente pensante e superior. Acredito em Deus por causa de um saco de berinjelas. Deixa eu explicar.

Na minha infância, eu era, em geral, um garoto comportado e de boa índole. Em geral. Mas sempre há aqueles momentos em que somos tomados por uma imbecilidade temporária e acabamos, seilá, colocando fogo em algum amigo ou coisa parecida. Coisas de criança. Naquele dia, foi exatamente isso.

Bem, não exatamente. Não botei fogo em alguém naquela vez. Só resolvi que seria uma boa idéia escalar o sobrado de minha avó pelo lado de fora. Enquanto chovia. E com uma só mão.

Sei o que você vai dizer: ninguém é tão imbecil. Bem, eu era. Mas tenho uma explicação totalmente razoável: sandálias do homem-aranha. Como toda criança altamente influenciável pelas cores berrantes da publicidade, obriguei minha mãe a comprar. E, ingenuamente, acreditava que agora podia escalar paredes por causa das tais sandálias. Você provavelmente já foi tão imbecil assim.

Acompanhou até aí? Agora vem a parte meio parábola/ensinamento/chatice.

Incrivelmente, contrariando a gravidade incessante sobre meu roliço corpo infantil, alcançei uma grande altura. Estava todo feliz, envolto a chuva e a vários metros do chão. Até que um raio me acertou.

Pode parecer impossível, mas veja só: eu estava em uma lugar alto em plena chuva, o que é exatamente o que não nos recomendam aquelas reportagens do Jornal Nacional sobre raios. E bem, um raio me acertou em cheio. E eu caí.

Mas aí entraram as maravilhas do Senhor.

Eu poderia ter caído no chão. Eu poderia ter caído em um carro. Eu poderia ter caído em uma estaca pronta pra me empalar. Eu poderia ter caído numa gaiola cheia de aves mutantes alienígenas carnívoras mortas-vivas que não eram alimentadas há uma semana. Mas não.

Caí em uma velha que carregava sacos de berinjela.

Deus, em sua imensa sabedoria e benevolência, colocou uma velha e seus vários sacos de berinjela debaixo de mim. De todas as possibilidades, justamente a que mais amorteceria minha queda.

Como isso aconteceria em um mundo sem um Deus? Aquela velha, aquelas berinjelas, naquele momento e naquele lugar são a prova mais cabal e certeira da existência do Todo Poderoso. Negar Sua existência não é mais possível depois disso.

Há como?

4 comentários. Viva!

Sobre comentários antigos: durante a migração do Ingenuidade para a rede Influxo.org, comentários anteriores a 2008 acabaram se perdendo. Estamos trabalhando para recuperar todos.

  • Posso concordar com você em uma coisa: alguns seres desse mundo só estão aqui para servir de colchão/apoio/saco de pancadas/balde de cuspe/etc para outros. Aposto que a pobre velha passou a vida regando beringelas e morreu dias depois.

    (Andei pensando e descobri valor zero na verdade : D)

  • E você provavelmente ainda matou a velha.

    Tsc, tsc Hugo.

  • Bem, provavelmente o Senhor deve ter colocado a velha nesse mundo unicamente com a missão de me salvar.

    Mais ou menos como Jesus morreu pra salvar-nos todos, sacas?

  • Se eu caísse em cima duma beringela e não fosse ateu, eu me tornaria naquele momento.

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