22 de junho de 2009
Onde Argumento Sobre Música, Mp3’s Players e Violência Doméstica
A música nunca foi tão maltratada. Para cada canto que eu olho, em cada rima que eu ouço, há alguém chegando bêbado em casa e dando uns belos tabefes na cara da música “só para ensinar essa safada”.
E nem estou falando da poesia desconstrutiva que é o “Créu”, ou dos atentados vivos ao bom gosto que são os pagodeiros, e muito menos daquela cantora gordinha com piolhos e sem calcinha. Apesar de todos esses possuírem uma bela parcela de culpa (principalmente a gordinha, se vocês me permitem dizer), quem realmente está matando a música são os mp3s players.
Começou devagar e do modo que a maioria das coisas começam: desvio de finalidade. Primeiro, um bando de militares queriam um modo de falar no MSN enquanto explodiam outras pessoas. Depois, um bando de nerds queria escutar suas canções favoritas sem precisar de cinqüenta e sete computadores para guardar um CD. E assim surgiram a internet, o formato mp3 e o filhinho mais pródigo desses dois: o download ilegal de músicas. Daí para surgirem os famigerados mp3s players só foi preciso juntar algumas peças remanescentes, algumas boas idéias e um pouco de cuspe. Pronto, estava criado o apocalipse musical portátil.
A maioria das pessoas costuma culpar os emos, mas eu vos digo, irmãos e irmãs apreciadores da boa música: mp3s players já estão acabando com a nobre arte (e provavelmente com sua audição também).
Antes, você tinha que parar para escutar. Apreciar uma música no rádio ou no tocador de vinil era um momento de gozo. Os primeiros acordes eram anestesiantes, não importasse o ritmo ou a melodia. A música penetrava com sadia suavidade. Ouvir música era uma arte tão bela quanto fazer esculturas de massinha ou assistir Karatê Kid.
Agora, perdemos a linha. Ouvimos nossa canção preferida em casa, no caminho para a faculdade, no ônibus, no supermercado, no sex shop, na loja de doces, na pastelaria da esquina, durante aquela aula chata que ninguém quer escutar. Na versão ao vivo, acústica e cover. Ninguém tem mais aquela “música da minha vida”, porque ouvimos tanto as músicas que precisamos trocá-las quase na mesma frequência que trocamos de perfil no orkut. É como aquela singela (e extremamente irritante) melodia daquela banda decadente que ainda vive nos anos oitenta: A Melhor Banda de Todos Os Tempos da Última Semana. Isso é tudo o que os mp3s players nos deram: bandas e músicas com data de validade.
Os mp3s players mataram a música porque banalizaram.
Os mp3s e seus infinitos gigas de capacidade. Os mp3s e seus tamanhos diminutos. Os mp3s e seus fones que isolam acusticamente sua cabeça. Os mp3s e suas baterias semi-intermináveis. A nonagésima quinta geração do iPod. Os mp3s e seus espaços para mais de mil músicas. Quem diabos precisa de mais de mil músicas (e tem tempo para isso)?
Até os celulares são mp3s players hoje em dia. E vocês sabem que ter celular é tão comum quanto ter uma boca, certo? Dentro em breve, a invasão dos mp3 players alcançará um novo estágio, com absolutamente todo mundo tendo um celular com mp3 e ouvindo aquela banda fantástica que descobriu ontem no mySpace, last.fm ou qualquer outra besteira que as pessoas usem pra descobrir novas bandas exatamente iguais às antigas.
Olhe em volta, meu amigo. Onde quer que você estiver, aonde quer que você for, eles estarão lá. Mesmo que você viaje até o Acre (que, como todos sabem, não existe), procure o mais distante e inóspito vilarejo, talvez um lugar sem energia elétrica, água encanada e figurinhas do Homem-Aranha, mesmo que você vá até esse minúsculo e ínfimo ponto à beira do mundo conhecido, aposto um pacote de balas 7 Belo que você verá alguém com um mp3 player. E, graças à terrível Lei de Murphy, provavelmente este alguém estará ouvindo o “Axé Bahia 2001” (convertido caridosamente em mp3 pelo vizinho), o que só prova o meu ponto.


